Edição nº 729 de 22 de Outubro de 2017

[Crítica de cinema] Fátima (2017)


2017-04-29

**** (Recomendo)

Fátima (2017) | Anabela Moreira, Rita Blanco, Vera Barreto, Cleia Almeida, Teresa Madruga, Alexandra Rosa, Teresa Tavares, Íris Macedo, Ana Bustorff, Márcia Breia e Sara Norte | Realizado por João Canijo | 153 min.

   Por: José Pedro Pinto

 

           Diz a velha máxima dos atores que “o mais importante é a honestidade, e quem conseguir fingi-la tem a vida feita”. Fátima é um filme abençoado de onze atrizes que têm a coragem de dar tanto de si próprias, que deixa de haver qualquer linha a separar o fingimento da honestidade. É um filme longo e cansativo, mas é um privilégio passar duas horas e meia com estas onze mulheres que falam por cima umas das outras, que se interrompem e discutem sem sentido, que desabafam e se apoiam umas nas outras, que sabem o que dizer para magoar a sério, e o fazem por vezes com malícia; mas que continuam sempre a falar, sempre a caminhar, cada qual sempre honesta a si mesma.

           Partilham todas a dor da caminhada, e o sofrimento parece ser para algumas a razão de ser da peregrinação: uma expiação necessária para provarem a sua fé. A fé, no entanto, não é tema de conversa, surge apenas nas canções que cantam para distrair a cabeça das pernas que pesam. Partilham todas também a alegria da cumplicidade, e de chegarem à noite e poderem tomar um banho e deitarem-se numa cama com um sentimento de dever cumprido. Uma delas vive sozinha a alegria de usar uma casa de banho limpa durante a peregrinação, e relata-a a uma das suas parceiras de viagem numa cena de uma universalidade e ternura incríveis. Numa outra cena noturna, Ana Maria (Rita Blanco) acorda Céu (Anabela Moreira) para criticar a sua atitude durante a jornada, e nada do que lhe diz é novidade, já tinha sido tudo anteriormente lido na cara da mulher, nas suas ações e nas coisas que não tinha dito.

           A câmara e o gravador de som sabem registar essas dores e alegrias, muitas vezes simultâneas, sem dar mais importância a umas que a outras, e sabem ver e ouvir aquelas onze mulheres sem prestar mais atenção às que falam ou às que ouvem, nem mais a umas conversas do que a outras. A existência de ações e diálogos simultâneos num só plano, que se entrecruzam e interrompem sem lógica definida, dentro e fora do quadro, já vinha de um filme anterior de João Canijo – Sangue do Meu Sangue (2011), o único outro filme que vi do realizador – mas aí tinham o seu quê de encenado. Aqui não, são cenas que até parecem criadas sem esforço, como se fossem apenas momentos da vida daquelas mulheres, registados por uma câmara invisível. E a quantidade de trabalho e coragem necessária para chegar a esse ponto é algo a que só quem tem fé no cinema estaria disposto, atrás e à frente da câmara.

           Com a passagem dos dias, os momentos de cumplicidade entre as mulheres vão-se tornando mais espaçados, e as discussões mais fortes e mais sem razão, motivadas apenas pelo cansaço e dor. Também o filme se torna mais cansativo. Mas eventualmente as onze mulheres chegam a Fátima no dia 12 de Maio e, num final catártico, juntam-se às dezenas de milhares de outros peregrinos, e as pernas deixam de lhes pesar tanto. Também o filme parece que levita durante uns momentos. ****


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