Edição nº 729 de 22 de Outubro de 2017

[Crítica de cinema] Dunkirk (2017)


2017-07-21

**** (Recomendo)

Dunkirk (2017) | Fionn Whitehead, Aneurin Barnard, Mark Rylance | Realizado por Christopher Nolan | 106 min.

    Por: José Pedro Pinto

 

          As luzes apagam-se e o filme começa. Um grupo de soldados britânicos estão presos em território inimigo, na cidade costeira de Dunquerque, no Norte de França. São acossados por tiros. A música começa. Na praia, outros 400.000 soldados britânicos aguardam a vinda de barcos do outro lado do canal que os levem para casa. Rodeados pelo exército alemão, o mar é a única saída, e fazem longas filas num pontão enquanto esperam dias a fio. A música continua, e quando pára pela primeira vez, perto do fim do filme, já o dueto Nolan-Zimmer se voltrou a mostrar uma das maiores colaborações realizador-compositor de todo o cinema, e já Nolan voltou a provar que é o maior mestre do suspense desde Hitchcock.

         A ação de Dunkirk passa-se em três espaços: a praia de Dunquerque, o avião de um piloto da Força Área Britânica, e um barco de recreio de um civil que parte para Dunquerque. Não se percebe ao certo o que se passa em cada um dos três, quem são as pessoas que os ocupam, ou qual a relação espacial e até temporal entre cada um: deixados às escuras, naturalmente abandonamos a passividade típica de ver cinema, e começamos a procurar respostas. De repente, já não estamos só a olhar para o ecrã, estamos a inquiri-lo. Como acontece sempre com Nolan.

           Aos poucos, as especificidades dos três espaços são-nos apresentadas: de maneira subtil, é-nos dado a perceber tudo o que pode correr mal em cada um, e quais as consequências disso. Mas nunca acontece nada de mal, pelo menos não de imediato; e é essa a definição de suspense: saber o quê, só não saber quando. De repente, já não estamos só a ver o que se passa a cada momento, estamos a antecipar o que virá a seguir. Como acontece sempre com Nolan.

           O realizador sabe que o estamos a tentar antecipar, por isso atira-nos areia para os olhos, fingindo que nos dá a ver o futuro. Mas o cinema é a arte da mentira, e Nolan sabe mentir como poucos realizadores souberam, e quando vemos “o futuro” novamente, desta vez no presente, ele tem uma interpretação bem diferente. De repente, percebemos que podemos inquirir e antecipar à vontade, nunca inquirimos nem antecipámos nada que não tenha sido o que o realizador quis que inquiríssemos e antecipássemos. Como acontece sempre com Nolan.

           Dunkirk não é o melhor trabalho de Christopher Nolan, mas é mais uma prova de que estamos perante um grande autor: um homem capaz de criar contos íntimos de obsessão, épicos filmes de super-heróis e de ficção científica, e um “épico-íntimo” de guerra, e mesmo assim fazer sentir sempre a mesma mão segura ao volante. A mão de um mestre. ****


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