Edição nº 758 de 20 de Novembro de 2017

[Opinião] Os arrastões


2017-07-31

Por: Inês Pina

O mundo gira a uma velocidade estonteante! Disso, não tenhamos dúvidas. A velocidade do desenvolvimento das coisas é tão atroz e tão silenciosa que quando elas nos atropelam ficamos atordoados. Banalizamos uma data de sinais, por comodismo, ignorância, descuido, egoísmo, falta de discernimento ou, pura e simplesmente, porque cegamos perante realidades que nos atormentam a vista.

Porém, apesar da nossa disposição o mundo não desacelera. Muito pelo contrário, por vezes acelera ainda mais e faz com que nos sintamos arrastados pelo mundo. Mas nós não somos arrastados pelo mundo, somos arrastados pelos que arrastam o mundo. O nosso grande problema é não anteciparmos os arrastões. Melhor, será que se antecipam arrastões?

Já estamos no arrastão. O mundo está às voltas e nós nas voltas da nossa vidinha mundana estamos a ser empurrados. A Venezuela desde 2016 que anda a ferro e fogo, há manifestações que são tudo menos pacíficas. Os venezuelanos lutam contra o que chamam “golpe de estado” querem eleições, a resposta que recebem é militar nas ruas. Saíram à rua porque se decidiu incorporar, em agosto de 2016, três deputados do Estado do Amazonas mesmo depois da eleição dos mesmos, em dezembro do ano anterior, ter sido impugnada. A oposição fez deste fato um cavalo de guerra, aproveitou a forte crise que a Venezuela vive e deu-lhe uma roupagem gigante. Foi a oposição? Foram os venezuelanos consciencializados e informados? Estará para chegar à Venezuela a democracia?

O que é fato é que a prolongada crise económica, colocou a maioria dos venezuelanos numa situação muito pior que a vivenciada na época dos protestos de 2014. A queda dos preços do petróleo - que representa aproximadamente 96% da PIB do país - tem reduzido ainda mais os recursos do Estado e agravado a escassez de alimentos e produtos de primeira necessidade. Muitas reportagens vimos sobre isto, certo? Com tudo isto gerou-se um desabastecimento quase crónico que, em conjunto com a maior inflação do mundo, fez com que grande parte da população tenha problemas para conseguir comida.

Além da crise, há uma intensa disputa política. A Venezuela está dividida entre os chamados chavistas - como são conhecidos os simpatizantes das políticas socialistas do ex-presidente Hugo Chávez -, e os opositores, que esperam o fim dos 18 anos de poder do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Saberão construir uma democracia, esta oposição tão batalhadora? Não estará a Venezuela a ser arrastada? Deve alguém intervir neste arrastão?

Vamos ao Brasil…mais um arrastão. Temer afinal é corrupto! O drama o horror, a sério que não se sabia? Que farão os brasileiros com um parlamento cheio de deputados envolvidos em escândalos e processos com a justiça?  Temer fala em exageros e militariza as ruas: "Meus amigos, o Brasil não parou e não vai parar. Continuamos avançando e votando matérias importantíssimas no Congresso Nacional. As manifestações ocorreram com exageros, mas deputados e senadores continuaram a trabalhar em favor do Brasil”. Estariam os brasileiros melhores com Dilma? Quem não é corrupto no Brasil? O que será melhor para o Brasil?

Estará a democracia a perder-se nos meandros de arrastões? Precisaremos de novos líderes. A sociedade de hoje é diferente daquela onde viveram os atuais líderes mundiais. Muitos dirão pior, muitos dirão pior. Certeza: é diferente!

A diferença hoje é que não bastam as visitas cheias de símbolos, regra geral estas são feitas sem plano – foi assim a primeira viagem do Presidente norte-americano, Donald Trump. Se a intenção era trabalhar para que houvesse negociações entre os dois lados, essa saiu bem gorada, pois não parece haver uma ideia de como o fazer.

Estamos todos a ser arrastados. As questões de fundo têm sido empurradas com a barriga, não há um plano estrutural, não há uma consciencialização estruturada. Estamos feitos autómatos a seguir com a vida. Que vida? Vemos matarem-se uns aos outros à nossa frente fazemos o post de homenagem e seguimos. Vemos o planeta a sucumbir, encolhemos os ombros e continuamos com os nossos hábitos caros e insustentáveis. Vemos oprimidos e continuamos com a ideia fechada de que são apenas os outros. Elegemos a medo, com medo ou por medo. Hipotecamos futuros. Oprimimos futuros.

Deveremos seguir em frente sem olhar para os lados? Devemos lutar? Temos a obrigação de lutar?


Partilhe:

© 2017 Dão e Demo - Todos os direitos reservados