Edição nº 703 de 26 de Setembro de 2017

[Crítica de cinema] Treblinka (2016)*


2017-08-13

*** (Vale a pena)

Treblinka (2016) | Kiril Kashlikov, Isabel Ruth, Nina Guerra | Realizado por Sérgio Tréfaut | 76min.

*Crítica originalmente publicada na edição de 4 de Agosto do Jornal do Centro.

 

Por: José Pedro Pinto

 

           Mais de um ano após vencer o prémio de melhor filme português no IndieLisboa 2016, e após apenas uma mão-cheia de exibições isoladas (incluindo uma em Viseu, em Setembro de 2016, no festival de cinema Vistacurta, organizado pelo Cine Clube de Viseu), Treblinka estreou finalmente no passado dia 6 de julho nas salas de cinema nacionais. Digo “finalmente” porque trata-se de um trabalho de importância universal, se bem que por vezes difícil de aturar.

           Fechados num comboio em constante movimento, os corpos de Isabel Ruth e de Kiril Kashlikov juntam-se a um grupo de corpos nus anónimos. Pelas janelas vê-se a paisagem fria do caminho para Treblinka, a mesma que terão visto as centenas de milhares de judeus que seguiram nessas mesmas linhas ferroviárias em direção ao campo de extermínio. Ruth dá corpo à voz de Nina Guerra, que juntamente com a voz de Kashlikov preenche as imagens do filme com a leitura de relatos de Chil Rajchman, sobrevivente de Treblinka.  

           Já todos vimos filmes sobre o Holocausto, ficcionados e documentais, mas a questão que se levanta em qualquer um é sempre a mesma: como transpor o horror para imagens? A solução de Tréfaut é espantosa: elimina-as. Vemos apenas esses corpos a olhar pelas janelas, a traçar desenhos no vidro embaciado, enquanto ouvimos descrições analíticas da vida no campo, relatadas no tempo presente.

           É um dispositivo repetitivo e lento, que torna a duração curta do filme (76min.) numa tarefa difícil, mas que tem um estranho efeito: no meio desse ambiente sonolento, a nossa atenção vai sendo afastada da tela, e vai-se voltando para dentro. Sem nada para onde olhar, os relatos ouvidos vão-se tornando eles próprios em imagens, projetadas apenas na nossa mente, com uma força particular por isso mesmo. Entre a ficção e o documentário, Treblinka consegue a proeza de tornar presente o Holocausto, e de fazer entender que está longe de ser passado. ***


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