Edição nº 969 de 19 de Junho de 2018

Uma ultramaratona em sandálias


2017-06-27

Abílio Travessas


O título no El País mais a fotografia duma índia mexicana, Maria Lorena Ramirez, a atravessar, correndo, um riacho, prendeu a minha atenção. Por isso, hoje, não vou escrever sobre Fausto Coppi e Gino Bartali e o livro de Marcos Pereda  Arriva Italia-Gloria y miséria de la Nacion que soñó ciclismo, emprestado por amigo também amante de ciclismo; nem de F. Puskas e dos três golos que marcou ao Benfica numa final da Taça dos Clubes Campeões Europeus pelo Real de Madrid e do ponto de vista espanhol deste jogo; nem de Di Stefano sindicalista; nem, como podia esquecer, o Sporting dos 5-0 ao Manchester United de Denis Law, George Best e Boby Charlton…

Esta vai servir para reiterar a minha admiração por Carlos Sá e mais um triunfo, numa ultramaratona, no estrangeiro.

Numa bela prosa do El País, com destaque na última página, reencontrei os tarahumaras ( ou raramuri, à letra, correr a pé) índios mexicanos que vivem na Sierra Tarahumara (Chihuahua) e  suas excepcionais qualidades de corredores de longas distâncias. A foto é surreal quando estamos habituados a imagens de atletas, super ou não, equipados de acordo com a ditadura dos mercados: uma mulher, jovem, 22 anos, sem calções ou sapatilhas das grandes marcas, apenas uma saia de tecido leve e sandálias – huaraches – com sola de pneu com que correu 50 km em 7h e 3m. Sem as modernices da moda das corridas actuais. Actuais continuam as palavras de Pier Paolo Pasolini, pouco antes de ser assassinado, em Outubro de 1975: “O consumismo é uma forma nova e revolucionária de capitalismo: a produção de mercadorias supérfluas a uma escala enorme e, portanto, o descobrimento da função hedonista”- convém meditar sobre as diferenças entre hedonismo e epicurismo. A proeza de Maria Lorena não foi acidental pois no ano anterior ficara em 2ª na Ultramaratona Caballo Blanco, de 100 km, em Chihuahua.

Para os anticonsumistas interessa transcrever o que disse Orlando Jimenez, organizador da corrida: não levava nenhum auxílio específico; nenhum gel, nem barras energéticas, nem bastão, nem óculos, nem esses ténis caríssimos que todos usamos para correr na montanha. Apenas uma garrafinha de água e um lenço  colorido ao pescoço. 

Veio-me à memória a Ultramaratona Melides-Troia em que participei pelo prazer de correr descalço, na areia, o mar sempre ao lado. Correr descalço revelou-se um erro pois a consistência da areia, muito fina para quem está habituado às  praias da Póvoa de Varzim e Aver-o-Mar, trouxe-me problemas nas ancas. Se para alguns era puro prazer, muitos, nacionais e estrangeiros, principalmente espanhóis, competiam duramente usando subterfúgios e equipamento sofisticado para ganhar prémios monetários não desprezíveis. A portuguesa, mangualdense, que ficara em 2º lugar na sua categoria contou-me que a espanhola que vencera a corrida de 43 km levara consigo amigos que lhe transportaram a água e suplementos energéticos para ficar mais leve.

Para mim a corrida/caminhada durou 28 km, até à Comporta, em 5h e 30 m e revelou-se uma prova dura, física e psicologicamente.

Nota: ainda transcrevendo El País- “Lorena dedica-se a cuidar do seu gado: tem vacas e cabras, caminha entre 10 e 15 km diários com os animais.” Para se manterem hidratados os tarahumaras bebem pinole, um sumo de milho com água que é também parte da sua dieta básica.


Partilhe:

© 2018 Dão e Demo - Todos os direitos reservados