Edição nº 969 de 19 de Junho de 2018

Gino Bartali, ciclista antifascista em tempo de Mussolini


2017-08-28

Abílio Travessas


Por: Abílio Travessas

Continuamos a seguir o livro de Marcos Pereda sobre a história do ciclismo italiano nos anos da 2ª Guerra Mundial. Vamos recordar Gino Bartali, o Pio, como era conhecido por ser católico fervoroso. A sua história é a história do fascismo italiano, de Mussolini, dos nazis, da perseguição e morte dos judeus, da rivalidade com Coppi e Magni, personalidades tão diferentes.

Se Fiorenzo Magni era fascista convicto, Bartali nunca o foi, apesar de o regime ter tentado apropriar-se das suas vitórias - vencera o Tour de 38 - para engrandecimento do Estado. Seu pai fora militante socialista e trabalhador numa fábrica cujo patrão tinha sido assassinado pelos camisas negras em 1925.

Depois da vitória no Tour Bartali é sem dúvida o melhor do mundo. Mobilizado  com a guerra, tem a sorte de o seu superior o ter encarregado de entregar documentos entre os aquartelamentos, de bicicleta, permitindo-lhe treinar. Mussolini destituído e preso, é libertado por paraquedistas alemães, funda a República de Saló. A perseguição dos judeus recrudesce o que leva a que o Cardeal de Florença peça a ajuda de Bartali para levar mensagens a sacerdotes de confiança para albergue de refugiados. É missão arriscada e o amigo Cardeal, seu mentor espiritual, alerta-o para os perigos. Gino pensa na mulher e no filho e decide: “Não me esperes esta tarde, vou treinar uns dias fora” diz à mulher Adriana.

Numa das missões mais arriscadas consegue, devido ao seu prestígio, distrair militares que vigiavam ponto importante do tráfego ferroviário de maneira a permitir a fuga de judeus em comboio que os levou à liberdade. Faz milhares de quilómetros de bicicleta com documentos secretos e mensagens, salvando quase mil pessoas, arriscando a vida.

 A sorte acompanha-o. A bicicleta prateada atrai a atenção dum aviador que a confunde com uma arma lançando bomba que não lhe destrói a máquina, encostada a um café, por uns metros. Quando chega a casa pinta-a de preto…

No pós-guerra os tempos não são fáceis. A guerra civil espreita. Bartali está no Tour de 1948 e recebe um telefonema do primeiro-ministro, Alcide de Gasperi, seu amigo e líder da Democracia Cristã: “Há muita confusão aqui. Uma vitória tua seguramente ajudaria a acalmar os ânimos”.

Gino tem 34 anos, está cansado e revoltado por a guerra lhe ter roubado os melhores anos, da vida e de ciclista. Existiu ou não o telefonema? O certo é que Bartali responde com las três jornadas consecutivas más demolidoras de la historia del ciclismo…

Eram tempos épicos. Agora, as etapas de montanha das grandes voltas só se decidem nos últimos cinco quilómetros, depois de as equipas mais fortes terem feito a selecção, ficando apenas os chefes de fila na disputa final. A 15 de Julho de 48 os corredores partem de Cannes para uma jornada alpina de 280 km e a neve aparece apesar do Verão. Gino passa por Bobet, a grande esperança francesa e Robic, ganhador um ano antes e chega a Briançon vencedor. Em Itália um jovem leva a notícia à Câmara dos Deputados que rebenta em aplausos e abraços.

Mais duas etapas alpinas e Gino conquista a amarela que conservará até Paris. E o mito se faz destas vitórias porque se diz que os italianos saíram à rua a festejar depois de estarem quase a começar luta fratricida.


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